PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 27 de Dezembro de 2015
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - UMA LUZ PARA O NATAL

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

            E naquele ano o dinheiro não deu. Simplesmente não deu. Julieta achou que daria e, num rompante, prometeu para filha que juntamente com o Natal viria a tão sonhada boneca. A menina, que completaria 5 anos no dia 25 de dezembro, já estava acostumada um único presente, que, segundo a mãe, era trazido especialmente pelo Bom Velhinho, para as crianças que faziam aniversário naquela data tão especial.

            Intimamente, Julieta se repreendia, pois acreditava que tinha parcela de culpa por a filha nascer justamente no Natal. A pobre menina jamais teria festas de aniversário nas quais pudesse convidar seus amigos, bem como, muito provavelmente, estaria fadada a continuar recebendo um único presente pelas duas datas. Jamais haveria um parabéns entoado na sala de aula e outras tantos inconvenientes de se fazer aniversário no Natal.

            Nas últimas semanas de gravidez, o parto estava marcado para o início da segunda quinzena de janeiro e Julieta prosseguia com os preparativos para receber ao mundo aquela vida que já era alvo de todo seu amor. Ela e o marido, Francisco, seu eterno Romeu, haviam sonhado e pranteado muitos filhos não nascidos, todos ceifados pela morte antes mesmo de existirem.  De acordo com os médicos, aquela gravidez era uma verdadeiro milagre, sobretudo diante do histórico de abortos anteriores e da idade que ia, ano a ano, retirando de Julieta as esperanças.

            O fato é que, após ultrapassados oito tranquilos meses, Julieta estava confiante de que nada daria errado e, contrariando as orientações médicas, resolveu ir ajudar uma amiga que estava passando por um momento difícil. Horas depois, nascia a filha, um pouco antes do planejado, em pleno Natal. Daquele dia em diante, todos os Natais adquiriram um significado extra, a certeza de que alguns sonhos, por mais improváveis que fossem, poderiam se realizar. Para Julieta, assim, a data era um presente, mas para a filha, uma espécie de sina, da qual um dia ela teria consciência.

          A mãe sempre tentava caprichar no presente único, mas dessa vez mal tinha dinheiro para comprar alguma coisa. Havia sido um ano difícil, no qual Francisco passou um período desempregado. Eles destinaram todos os recursos da família para os gastos indispensáveis, mas pouco havia sobrado. Julieta, com o coração apertado e com os olhos cheios de lágrimas, já ensaiava qual a desculpa que daria para a menina... Talvez ela pudesse dizer que o Papai Noel não poderia vir nesse Natal, que alguma das renas estava doente, ou qualquer coisa do gênero, mas temia que a filha, ao encontrar as outras crianças do prédio, descobrisse que isso não era verdade...

         Para o aniversário, de toda forma, faria um bolo e saber enfeita-lo era uma habilidade bem útil nesse momento. Cantariam parabéns juntamente com os avós e dois primos que não iriam viajar e ela arrumaria algum presente que pudesse não fazer feito. Só não imaginava como. Ela precisava de uma luz, de uma ideia e, em suas orações, rogou ao Universo que lhe inspirasse, pois tudo o que ela mais queria era o sorriso da garotinha que dava sentido a todos os seus dias.

         Na véspera de Natal, sem que qualquer grande ideia lhe ocorresse, foi até o mercado mais próximo, com seu dinheiro contado, para comprar os ingredientes do bolo. Na entrada, no entanto, viu uma jovem mãe, maltrapilha, sentada na calçada com um bebê nos braços, a pedir esmolas. Ao lado dela, uma caixa de papelão, com alguma coisa dentro. Ela não gostava de dar dinheiro, pois sempre desconfiava da destinação que lhe seria dado, mas a cena não lhe saia da cabeça.

         O dinheiro que ela tinha mal deu para comprar o básico e, ao olhar para o preço do que usaria para a cobertura, resolveu comprar um litro de leite e alguns biscoitos. A filha iria entender e talvez essa fosse uma boa lição de Natal. Ela daria um jeito, de toda forma. Ao passar no caixa, constatou que, de fato, não lhe sobrara qualquer moeda.

          Na saída, abordou a jovem mãe e lhe entregou o leite e as bolachas. A moça, agradecida, olhou nos olhos de Julieta e lhe disse: _ muito obrigada! Hoje é meu aniversário...Julieta, que já estava indo embora, voltou e disse que amanhã seria o aniversário da filha dela, Cristiana...

        A moça, então, cujo nome Julieta jamais soube, enfiou a mão na caixa e perguntou se ela aceitaria um presente para dar a Cristiana e de lá tirou um cãozinho, filhote, malhado de preto e branco. Ela disse que não tinha condições de cuidar dele e que ficaria muito feliz se ele pudesse ter um lar...

    Naquele dia, uma menininha teve o Natal e aniversário mais feliz de sua vida e Julieta, ao voltar no dia seguinte para levar um pedaço de bolo e outros alimentos para aquela jovem mãe, não ficou exatamente surpresa ao descobrir que ninguém jamais vira qualquer pessoa com aquela descrição por ali... Ela sabia que milagres algumas vezes acontecem...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:41
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