PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 29 de Agosto de 2020
FELIPE AQUINO - LIBERDADE OU LOUCURA ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que é ser livre? É fazer tudo o que quero?

A maior aspiração do ser humano é a felicidade. E isto é consequência natural de termos sido criados à “imagem e semelhança” (Gen 1,26) de Deus, para participar de sua vida bem-aventurada. O Catecismo, no primeiro parágrafo, afirma:

“Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar da sua vida bem-aventurada” (n.1).

“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (n.27).

Já que ele foi feito por Deus, e para Deus, só conseguirá ser feliz em Deus. Todos os outros caminhos de felicidade serão frustrantes, e a fome de ser feliz não será saciada plenamente.

Santo Agostinho (354-430), um dos maiores pensadores de todos os tempos, depois de buscar a felicidade nos prazeres do mundo, na retórica, na oratória, no maniqueísmo e em tantas outras estrepolias, somente saciou o seu coração quando encontrou o Evangelho. Logo no início das suas Confissões, diz:

 “Nos fizestes para Vós e o nosso coração não descansará enquanto não repousar em Vós”.

E adiante, lamenta ter demorado tanto para ter descoberto a verdadeira fonte da felicidade:

“Ó Jesus Cristo, amável Senhor, por que, em toda a minha vida amei, por que desejei outra coisa senão Vós?”

Sem Deus não há autêntica liberdade e felicidade.

O Criador não quis para nós uma felicidade pequena, esta que se encontra entre as coisas do mundo: o prazer dos sentidos, o delírio das riquezas ou o fascínio do poder e do prestígio. Não. Isto é muito pouco para nós. Deus quis que a nossa felicidade fosse muito maior; quis que fosse Ele próprio. E isto é um grande ato de amor do Pai para conosco. O Pai, sempre quer “o melhor” para o filho. Daí se conclui que a fome de felicidade do homem é infinita e não pode ser saciada sem Deus, que é infinito. É fome de Deus.

Sem acolher Deus de coração aberto, que se revela pela criação, pela Bíblia, e por Jesus Cristo, que é a perfeita revelação do Pai (Hb 1,2), o homem jamais experimentará a autêntica felicidade. E isto não é uma mera conclusão religiosa, é um fato de vida. Experimente hoje dar a um jovem tudo o que ele quiser: dinheiro à vontade, prazer até não poder mais, “curtição” de toda natureza, e você verá que a sua “fome” de felicidade continuará insaciada. Não fosse isto verdade, não teríamos muitos jovens de famílias ricas, mas delinquentes, envolvidos com as drogras, crimes, etc. Por outro lado, vá à um mosteiro e pergunte a um monge, que abdicou de todos os prazeres do corpo e do espírito, para abraçar somente a Deus, se lhe falta algo para ele ser feliz. A resposta será não! Nada lhe falta, pois ele tem Tudo. Tem Deus.

 

 

homemsolliberdade-300x200.jpg

 

 

 

 

Leia também: O que é o livre arbítrio?

Por que Deus nos fez livres, mas podendo pecar?

Deus e a liberdade humana

Onde mora a felicidade?

 

 

construir_homem_mundo.png

 

 

A Igreja, de maneira insistente, nos ensina que:

“O aspecto mais sublime da dignidade humana está nesta vocação do homem à comunhão com Deus… Pois se o homem existe, é porque Deus o criou por amor e, por amor, não cessa de dar-lhe o ser, e o homem só vive plenamente, segundo a verdade, se reconhecer livremente este amor e se entregar ao seu Criador” (Gaudium et Spes, 19).

Muitos pensam que abraçar a Deus e viver uma vida em obediência às suas leis de amor, significa “perder” a liberdade. Ao contrário, Deus é a verdadeira Liberdade e Verdade.

É preciso distinguir entre liberdade e libertinagem, entre ser livre e ser libertino. Liberdade sem compromisso com a verdade e com a responsabilidade, torna-se libertinagem; e esta, jamais poderá gerar a felicidade, já que vai desembocar no pecado. E “o salário do pecado é a morte” (Rom 6,23).

 

 

para_ser_feliz.png

 

Ser livre não é “fazer tudo o que eu quero”. Não. Muitas vezes isto é loucura. A verdade é o trilho da verdadeira liberdade. Liberdade sem verdade é loucura. Será liberdade assegurar que dois mais dois são cinco? Será liberdade desrespeitar o catálogo do seu aparelho de TV e, ao invés de ligá-lo em uma tomada de 120 volts, como manda, você teimar em ligá-lo em outra de 210 volts? Será liberdade, por exemplo, usar drogas, para sentir-se livre, mesmo destruindo a vida? Será liberdade, usar o sexo sem o compromisso do casamento, apenas por prazer, mesmo sabendo que ele poderá gerar uma gravidez despreparada, um aborto, um adultério? Não. Tudo isto não é liberdade; é loucura!

A liberdade que faz a felicidade, é alicerçada na verdade e na responsabilidade. Fora disso é loucura, libertinagem, irresponsabilidade… pecado, que vai gerar a dor, o sofrimento e as lágrimas. Não queira experimentá-la. É muito melhor aprender com o erro dos outros. Abra os olhos e tenha coragem de ver!

 

em_busca_da_perfeicao.png

 

Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo14,6).

Por mais duras que sejam as exigências do Sermão da Montanha (humildade total, mansidão, misericórdia, pureza de coração, castidade, jejum, esmola, oração, etc), é aí que temos o código da liberdade e da felicidade autênticas.

O Catecismo da Igreja garante que:

“As bem-aventuranças respondem ao desejo natural de felicidade” (n° 1718).

Santo Agostinho dizia:

“Meu corpo vive da minha alma e esta vive de Vós”.

São Tomás de Aquino conclui: “Só Deus satisfaz”.

Santa Teresa disse: “Só Deus basta”.

São Luiz de Montfort acrescenta: “Deus só”.

É nas bem-aventuranças que o homem encontra o sentido e o objetivo da vida. A liberdade só atinge sua perfeição quando está ordenada para Deus, seu bem último. Quanto mais praticar o bem e a virtude, mais livre a pessoa será. Enquanto as paixões nos dominarem, não seremos livres e felizes. Enquanto o espírito do homem for escravo da sua carne e da sua sensibilidade, este ainda não será livre. Ainda viverá se arrastando pela vida.

“É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gal 5,1), nos ensina São Paulo; e esta liberdade custou o sangue do Cordeiro de Deus na cruz, para destruir a causa da nossa escravidão; isto é, o pecado. E o apóstolo diz:

“Ficai, portanto, firmes e não vos submetais outra vez ao jugo da escravidão” (Gl 5,1-2).

Aceitemos “morrer” para nós mesmos, pela cruz, a fim de que possamos ser livres em Jesus. Quando o Senhor manda tomar a nossa cruz, “a cada dia”, e segui-lo, é sinal inequívoco de que é esta cruz que nos salva. Todos os santos se santificaram pela cruz. Não há como abraçar o Cristo sem abraçar a cruz, mas também não se pode abraçar a cruz sem o Cristo. Se por um lado a cruz de cada dia nos liberta, por outro lado, sem o Cristo, esta cruz nos leva ao desespero. Não se pode separar Cristo da Cruz. Ambos nos são indispensáveis para a salvação.

A cruz de “cada dia” nos liberta de todas as más inclinações, “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo 2,16), e de todo o mal que há no interior dos corações: “maus pensamentos, devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez” (Mc 7,21-23), e que torna o homem impuro.

Só a cruz e a “morte” do próprio eu, sobre ela, podem nos libertar das garras do pecado. É por isso que, pedagogicamente, o Senhor nos dá a “honra” de carregar, também nós, a sua cruz. E ninguém está dispensado desta missão sobre a terra. É por amor a Cristo que carregamos com Ele a cruz, seguindo-o, a cada dia, sem desespero, tristeza e lamúria.

São João da Cruz afirmava que “quem não busca a cruz de Cristo não busca a sua glória”.

Mas por que temos tanta repugnância da cruz? Porque resistimos à cruz de “cada dia”: as ofensas, as incompreensões, o cansaço, o trabalho, a doença, as contrariedades, os acidentes, a morte…? É porque ainda não experimentamos todo o seu poder salvífico. Aqueles que conheceram esse valor a desejaram como um verdadeiro dom de Deus.

A cruz nos desespera quando ela está sem o Cristo; isto é, sem a sua graça e sem a fé. É Ele que nos dá força, compreensão, alegria, paz, paciência e resignação para levar a cruz, a cada dia. Portanto, a grande lição da Paixão e Morte do Senhor, é a de que devemos amar e abraçar a cruz; mas não apenas a cruz de madeira que se ergue em cada lugar, mas “a minha cruz”, aquela que o Senhor dá “a cada dia”, para a minha santificação (Heb 12,10). O livro dos Provérbios nos ensina:

“Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho” (Prov. 3,11 s).

Dizemos ao Pai, todos os dias, na oração do Pai-Nosso: “Seja feita a Vossa vontade”; e no entanto, muitas vezes, quando Ele nos apresenta a cruz de cada dia, nos rebelamos, revoltamos e perdemos a paz. Esta atitude não está de acordo com nossa fé.

Aceitemos, na fé, toda a vontade de Deus.

 

 

 

 

 

FELIPE AQUINO   -      é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br Twitter: @pfelipeaquino

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:22
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links