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Sábado, 26 de Abril de 2014
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - A DOAÇÃO DE ORGÃOS, UM GESTO DE PROFUNDA SOLIDARIEDADE HUMANA

 

 

 

           

 

 

 

Caracterizado como uma operação cirúrgica pela qual se enxerta no organismo receptor um tecido obtido de um doador, o transplante é tido como uma das mais expressivas conquistas médicas, além de se revelar, observadas as exigências legais, numa manifestação de caridade e de exercício dos autênticos sentimentos da humanidade.

 

 

Efetivamente, na luta pela vida, os transplantes de órgãos significam uma grande vitória e a Lei de Doação de Órgãos, editada no Brasil em janeiro de 1998, trouxe a muitas pessoas, praticamente condenadas à morte, uma esperança visível de sobrevivência. Entretanto, decorridos dezesseis anos de sua promulgação, o diploma legal ainda não produziu os efeitos desejados, notadamente o sensível acréscimo de operações do gênero. Evidencia-se, por inúmeras constatações, que esse quadro não tem caráter jurídico, mas aparece assim caracterizado em decorrência de inúmeras circunstâncias materiais e culturais que cercam a questão.

 

            Com efeito, a carência de recursos na área da saúde se vislumbra como um dos fatores primordiais de dificuldades, acrescido de problemas administrativos que impedem o avanço e o aprimoramento das centrais de transplantes estaduais e circunstâncias que englobam a aceitação, a incompatibilidade, a rejeição, a conservação dos órgãos, a regeneração, a imunologia, etc.. Além destes aspetos técnicos, há motivos de ordem sócio-culturais, pois evocam o mundo simbólico, emocional, de crenças e relações, como certos obstáculos criados pelas famílias de pacientes com morte cerebral, que entendem ser desrespeitoso dispor da parte do corpo de um ente querido nestas condições.       Entretanto, o sofrimento de quem entra na fila do transplante é muito forte, sabendo-se ainda que vai enfrentar um paradoxo. De um lado tem que esperar pelo óbito  de um doador compatível, a autorização de parentes e, sobretudo, que o órgão chegue em condições de ser transplantado. Essa maratona dura, em  édia, onze meses, se for o coração, e pode chegar a mais de dois anos, no caso de um transplante duplo de rim e pâncreas. Do outro lado, passa conviver diariamente com a possibilidade de risco iminente de passamento, já que a operação em geral, é a última alternativa.

 

Na realidade, precisamos nos conscientizar que a doação de órgãos se constitui num gesto de profunda solidariedade humana já que possibilita, mesmo após a morte física de uma pessoa, que outras possam continuar vivendo, beneficiadas por esse gesto de amor. Nesse sentido, cite-se trecho de editorial da revista “Família Cristã” (08/95 – pág. 05):- “... a atitude de doar se aproxima muito do mandamento cristão que assegura não existir prova maior de amor do que dar a vida pelo próximo. É um compromisso com a vida que supera a simples luta pela sobrevivência pessoal e denota a vontade de estar em permanente estado de comunhão com toda a humanidade, desejo que se prolonga até mesmo após a morte biológica”.

 

Sob qualquer perspectiva, a doação de órgãos deve ser incentivada por todos os que consideram a vida um bem precioso pelo qual se deve lutar com todos os meios e toda a tenacidades possíveis. Graças ao transplante, também muitos indivíduos puderam melhorar sua qualidade de vida, recuperando a visão ao receber uma nova córnea, por exemplo. Por isso, a ausência acerca do que é um dever fundamental, não pode prosperar. É necessário que  todos se transformem em doadores. Transformação esta que nos ajuda a recuperar, na ética da responsabilidade, a disposição para estarmos mais disponíveis para o outro. Afinal, disse um filósofo, a relação social é o milagre de sair de si, e encontrar o próximo, que antes de nos fascinar, ameaçar ou agredir, é a força que nos ajuda a quebrar o encantamento  individualista que nos prende a nós mesmos.

 

 

 

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário.



publicado por Luso-brasileiro às 10:27
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