PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 29 de Agosto de 2020
JOSÉ RENATO NALINI - O MUNDO SEM FRONTEIRAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José Nalini.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Revisitar ideias, reinventar concepções, aceitar a profunda mutação da vida, imposta por inúmeros fatores, mas intensificada pela Quarta Revolução Industrial, é missão de todas as pessoas preocupadas com o amanhã.

Ideias ultrapassadas ainda persistem numa rigidez inflexível nas consciências arteriosclerosadas. Algumas delas fazem semelhantes sofrerem. Supremacia racial, preconceitos – todos eles – e soberania, são três exemplos semi-sepultos mas atuantes.

Falo sobre a soberania, que incita um sentimento xenófobo e agressivo nas mentes simplórias. Isto independe de escolaridade. Adquirir conhecimento não significa, necessariamente, fazer bom uso dele. Importa é ter uma cabeça bem feita, não uma cabeça cheia. Você se lembra quem disse isso?

O núcleo de intolerância alimentado pela ira resiste à racionalidade. Expulsa a sensatez e fortalece os dogmas nutridos por emoção e instintos primitivos. Invoca-se a soberania com todos os seus qualificativos, mantendo-se a formatação hoje ultrapassada de uma ideia-força invencível, onipotente, com a qual não se pode transigir em hipótese alguma.

É bombástico reafirmar que “todo o poder emana do povo”. O povo, essa ficção de tamanha complexidade e exibida ao discernimento que resta, por força da pandemia, é um conjunto heterogêneo de inúmeras tribos. Pouquíssimos os acolhidos pelo sistema, enquanto os invisíveis, os excluídos, os hipossuficientes, os carentes, os párias, formam legião.

Cabe indagar: a ideia de soberania como algo absoluto e inquestionável ainda existe, além de residir nos discursos mais inflamados e fundamentalistas?

Quando se pensa na destruição do ambiente, a gerar fenômenos como o aquecimento global, a desertificação, a extinção da biodiversidade e, portanto, de qualquer condição de vida, onde está a soberania?

A chuva ácida, as nuvens de gafanhotos, as ilhas pet flutuantes por mares tão poluídos, respeitam a soberania? Quedam ante os limites convencionados pelos homens?

O contrabando de armas, de drogas, de pessoas, se submete às fronteiras? O capital se interessa por observar linhas territoriais ou migra continuamente, na busca de maior rentabilidade e segurança, adquirindo feição transnacional ou mesmo apátrida?

Para o bem e, principalmente, para o mal, fronteiras são ficções. Subsistem na retórica inflamada do mais obtuso conservadorismo, no pior sentido desse verbete. A sociedade já não as respeita, assim como as desconhece as novas gerações. Nascidas sob o signo da tecnologia, amplificadora da natureza humana, transitam livremente por todas as redes. Se também aqui proliferam canais de ódio, que caluniam, injuriam, difamam, ofendem e ferem seres humanos, é enorme o risco da coisificação do semelhante. É comum reduzir pessoas a objetos descartáveis. Acessamos e deletamos perfis. Disseminamos o humor cáustico, nos deleitamos com as fake News.

Todavia, é o conduto comunicacional entre avós e netos. Resgate de amigos de infância. Veiculação de mensagens edificantes, de carinho e de ternura. A paisagem digital, como o tecido humano, tem vales profundos e sombrios, onde medra a inveja e prospera a hipocrisia, mas tem picos luminosos, nos quais brotam respeito, compaixão e empatia.

O mundo digital não tem fronteiras geográficas, nem etárias, nem sexuais, nem econômicas. Num Brasil que já possui quase trezentos milhões de mobiles, para uma população de cerca de duzentos e dez milhões de habitantes, fácil concluir que alguns brasileiros manuseiam, simultaneamente, várias dessas bugigangas eletrônicas e que estão permanentemente antenados.

Se há uma rota de fuga à realidade, por sinal tão melancólica e apavorante como a dos últimos meses, há também a busca de novas formas de conexão. Exemplos de ressignificação da confiança, da amizade, da preocupação com o outro, não são raridade.

Como seria bom se os pensadores criativos e de mentalidade aberta a essa profunda mutação da vida, se ocupassem de buscar funcionalidades que permitam a cada pessoa influenciar a condução da coisa pública, para lembrar ao detentor de autoridade – qualquer seja ela – que há uma razão maior a ser observada. A quem mais foi dado, mais será exigido.

Governo é instrumento de facilitação da vida de todos, não ferramenta de consecução de projetos pessoais e de enriquecimento sem mérito. Até para os devotos da soberania, impossível deixar de reconhecer que seu único titular é esse conjunto heterogêneo de humanos angustiados, atormentados e, quantos deles, desesperançados que se convencionou chamar de “povo”.

O mundo sem fronteiras em que a humanidade vivencia sua aventura pelo planeta seria bem melhor se, além das fronteiras físicas, eliminasse as fronteiras psíquicas que separam, uns dos outros, estes seres frágeis e finitos, hoje tão confrontados pela inevitabilidade da morte.

 

 

 

 

JOSÉ RENATO NALINI  é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.

 

 

 

 

 

***

 

 

EDUCAÇÃO, UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA

 

 

 

Caros amigos, quero compartilhar uma novidade: o título Educação, uma questão de justiça, publicado pela SESI-SP Editora está disponível no formato e-book, disponível na Amazon e nas principais plataformas de venda de livro digital como Google Play Livros, Apple Book e Kobo,  Pela Amazon, acesse: https://amzn.to/2Yxi61s

 

 

Educação, uma questão de justiça por [José Renato Nalini]

 

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:58
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links