PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 29 de Maio de 2016
JÚLIA FERNANDES HEIMANN - CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NO BRASIL

                     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Em agosto deste ano, o término da Segunda Guerra Mundial estará completando setenta e um anos.

   Se perguntarmos a algum cidadão bem informado sobre essa guerra, com certeza saberá os nomes dos países envolvidos e os locais dos Campos de Concentração.

   Mas se perguntarmos se tem conhecimento da existência de Campos de Concentração no Brasil, por certo dirá que não, e até duvidará.

    Já ouvíramos falar nessa possibilidade, mas não tínhamos informações relativas. Por acaso, ofereceram-me um livro intitulado “O Canto do Vento” do escritor Camões Filho, editado pela Scritta. O autor publicou depoimentos de algumas pessoas que foram aprisionadas nos Campos de Concentração do Brasil, informando que o desconhecimento se deve à falta de divulgação dessa página negra da nossa História.

   No livro, os relatos começam com a partida do navio Windkurt da Alemanha para a África, em viagem turística, em 1939. Em setembro desse mesmo ano, quando o navio já estava na Cidade do Cabo, irrompeu a guerra. O capitão recebeu ordem para voltar, mas, ao sair do porto, cruzou com um navio holandês que telegrafou aos ingleses denunciando o local do navio alemão. Resolveu mudar o rumo e seguiu para a Argentina. Quando chegou, verificou que vários navios holandeses estavam ali concentrados. Partiu, então, para o Brasil, país neutro à época.

    No dia 7 de dezembro de 1939, chegou ao porto de Santos. A tripulação não desembarcou. Um cruzador inglês os vigiava dia e noite, com canhões apontados para o navio. Algumas semanas depois, os alemães desembarcaram e se hospedaram em pensões santistas. Não havia como retornar à Alemanha.

   No dia 18 de agosto de 1942, cinco navios brasileiros: Araraquara, Baependi, Aníbal, Benévolo, Itagira e Arara foram atacados, supostamente, por alemães; e naufragaram causando 652 mortes. Logo, o Brasil rompeu relações com a Alemanha, os tripulantes do navio aportado em Santos tiveram seus documentos confiscados e o Brasil vendeu o navio aos ingleses.

Policiais aprisionaram os alemães que estavam em pensões e apreenderam seus pertences. Em uma mala encontraram o livro:

“Kochkunet Führer” e acharam que eram informações do Führer, como Hitler era chamado. Não sabiam que era um guia culinário, pertencente ao cozinheiro.

  Os alemães foram transferidos para a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, ficando juntos com tripulantes de um navio italiano, apreendido também.

  Permaneceram nesse local por cinco meses; depois, os “Cabeças Vermelhas” - a Polícia Federal de Vargas - os transportaram para os Campos de Concentração instalados em  Guaratinguetá, Pirassununga e Pindamonhangaba.

  A existência desses campos sempre foi negada pelas autoridades brasileiras, mas documentos exibidos pelos ex-prisioneiros mostram que a denominação era essa mesmo. Várias fotos mostram as anotações: “Fulano de tal/Campo de Concentração de Pindamonhangaba-SP/Brasil”. Nesses locais faziam trabalhos forçados e vestiam macacões com números no peito e nas costas. Os que tentavam fugir eram capturados.

    Três meses após o término da guerra, foram soltos. Há o relato de um ex-prisioneiro:

 “Nos libertaram às 10 horas de noite, chovia e fazia muito frio. Sem dinheiro e sem falar português, não tínhamos para onde ir. Rumamos até a Delegacia dos Estrangeiros-SP, para conseguir documentos, pois os nossos haviam sido recolhidos. Por onde passávamos, ouvíamos:

 - Olhem os nazistas! Olhem os nazistas!

   Em 1952, o Consulado Alemão nos ofereceu retorno à Alemanha, mas a maioria resolveu ficar no Brasil, pois perdera todo o contato com a família e alguns arrumaram companheiras.

    Dos locais onde fomos aprisionados não há mais vestígios. As únicas testemunhas somos nós que, devido à idade, não teremos mais muito tempo para provar o acontecido”.

    Pormenores como o nascimento de um bebê, casamentos e outros também são relatados nesse precioso livro.

    Quanto à denominação aceita pelas autoridades, que os locais eram, apenas: “Campos de Internação”, qual será a diferença se as pessoas ali confinadas perderam a liberdade e eram obrigadas a trabalhos forçados? 

    Como disse meu saudoso amigo judeu: “Esse assunto deverá ser sempre lembrado para não ocorrer novamente...”

     Estou fazendo a minha parte.

 

 

 

JÚLIA FERNANDES HEIMANN   - escritora, poetisa e acadêmica. Jundiaí. 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:54
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links