PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quinta-feira, 12 de Julho de 2018
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - PELOS TRAÇADOS DE DEUS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Com a mãe me deparei no inicio da década de 80. Conheci aos poucos sua história de ascensão e queda. Escalada, ainda menina, nos palcos ébrios, que exalavam suor. E o tombo veio no degrau da realidade. Apareceram em seu rosto sinais prematuros de cansaço e fastio.
Retorno sempre ao assunto: abuso sexual infantil. É tão perverso. Como tanta gente tem dificuldade em perceber as sequelas tenebrosas. E se os abusados forem de situação de pobreza, pior ainda, pois as denúncias e as possibilidades de tratamento são menores. Os responsáveis, algumas vezes, veem no comportamento da filha ou do filho um aceno para que o abuso aconteça. E as vítimas encaram como sina e seguem seu destino de conformação com as tragédias.
A realidade dela, a partir dos sete anos, teve esse alicerce de desmoronamento. São 45 anos de procura pelo equilíbrio que lhe faltou e que poderia ter lhe oferecido uma proposta diferente. Foi pouco à escola. Difícil conciliar alfabetização e números com o coração em feridas pelas marcas de rompimento na pele ingênua. Ela própria se colocava nos cantos de solidão. 
Os ataques ao seu corpo de menina, contudo, não lhe impediram de ser defensora da vida. Nesse tempo de instabilidade, provocada pelos desacertos que lhe impuseram, vieram filhos. Os de seu entorno consideravam que essas crianças eram apenas o resultado de desatinos dela. Sem condições de criá-los, mas os reconhecendo como únicos e filhos de Deus, jamais considerou a hipótese de lhes tirar o direito à vida antes de nascer, embora, naquela época, uma aborteira rondava a praça de luzes sombrias, oferecendo seus préstimos. Levava-os, com a alma em prantos, ao Fórum, para adoção. No final de sua vida, essa aborteira, entre a lucidez e a insanidade, cuidava de uma porção de bonecas, que mantinha em sua cama. Dizia-me que eram bebês que ela destruíra e que, naquele tempo, recuperava para a sobrevivência. Tão forte isso!
Mas voltando à mulher, de pureza maculada, sem formas de defesa: apareceu, nas redes sociais, uma moça que talvez seja uma de suas filhas que foram para adoção. A mãe busca a filha para lhe explicar os acontecimentos da época. A filha busca a mãe para saber de suas origens. As duas me enviaram fotos para ver se identifico na filha semelhança com a mãe. Concluo que são traçados de Deus Amor para o reencontro.
 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 11:01
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