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Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - REFERÊNCIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Conheci-a no bar que era famoso pelo comércio do sexo. Espaço da frente com mesa de sinuca e nas prateleiras bebidas. Luz sombria em ambiente soturno de compra e venda de peles e emoções, em sua maioria desgastadas.  Depois dos degraus, os quartos escuros e abafados com sons que iludiam muitos dos clientes. Recordo-me de outra moça, de carne judiada, que escapou de um orfanato, aos dez anos, em outra região, pelos maus tratos. Tropeçou de imediato em um bordel. De lá, se evadiu e chegou àquele local. A espuma de colchão, que colocava dentro do corpo, uma vez por mês, em certo momento, apodreceu, juntamente com o útero, os ovários, as trompas... Mais um vazio. Dizia-me temer que, no hospital, a condenassem por sua forma de sobrevivência e pela fuga de menina. Foram tantos comentários sobre o seu gesto tresloucado, sem prudência alguma sobre a saúde, que escapuliu do hospital antes da alta e jamais soube dela.  Fazia muito tempo que não me lembrava da moça que, dentre outras, me despertou um sentimento materno. Estive naquela espelunca por incontáveis vezes, para dizer às mocinhas e às senhoras desesperançadas sobre o colo de Deus, que acolhe sem barreira, acalma os medos, cura chagas...

Mas voltando à mulher, cuja referência era o tal bar. Trocávamos sorrisos e quase não conversávamos.

Décadas após, “mudou de referência”. Veio para os cantos expostos da praçacentral e se tornou, por algum tempo, novidade para os consumidores. Cabelos azuis, amarelos... Unhas de cor semelhante e a boca borrada de coloral.Percorria um único quarteirão. Agradável sempre comigo e jamais deixava de perguntar sobre a nossa mãe, especialmente quando quebrou o braço. Para elas, com o passar dos anos, também se fez doschamegos que não tiveram.

Em outubro, se não me engano, avisou-me que viria esporadicamente a Jundiaí. Voltara à sua cidade natal. Lá havia gente sua. Era bom estar próxima aos laços de sangue, em uma época em que se considerava enfraquecida. Encontramo-nos na segunda semana de dezembro. Contou-me que, em todas as vindas, fazia questão de entrar na Catedral e rezar. Os sinos da Igreja fizeram-na perceber que o Azul sobre ela. Alegrei-me.

Avançaram os problemas vasculares acompanhados de outros. Partiu.  Entristeci-me, contudo creio que levou, como referência maior daqui, as torres que lhe fizeram olhar o Céu.

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 12:07
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