PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sexta-feira, 27 de Novembro de 2020
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - TRISTE SINA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Os pais da menininha de dois meses voltaram para as drogas. Foram nove meses da mãe, o companheiro e a bebê –nas entranhas maternas – no consumo. Um mês e pouco na abstinência por ficarem zonzos com a beleza da criança, o choro, o cabelo pouco enfeitado com laço...  De repente, veio uma necessidade imensa de vagar pelas ruas de biqueira em biqueira. Foram. Deixaram a criança em lugar da aposentadoria da avó. Não foi dado parte. Houve diferentes acontecimentos em que os dois se misturaram à neblina e se perderam na madrugada. Um dia regressam. A bebê toma o leite que é possível com o valor financeiro da casa. As fraldas rarearam e as roupinhas quase não servem mais.
A avó era mais velha ao seu chão ruir. Encontrava-se com seis anos. Aprendeu pequena ainda a buscar, no tempo de fome, o que sobrava dos restaurantes e das casas envidraçadas. Alguns adolescentes, da época, criados na fartura de bens e na pobreza de caráter, aproveitaram para exercitar nela a sua “masculinidade”. Sem proteção, assimilou que as pessoas, de acordo com a sua classe social, possuíam um tipo de corpo e o seu era para uso. Com os filhos, fez de tudo para resguardá-los, contudo não é fácil aos que se conservam na miséria que lhes foi imposta. As moradias com seus cômodos apertados, sem quintal com laranjeiras e vista para o céu, em meio ao odor da embriaguez, desestruturam por dentro. O raciocínio misturado com a desnutrição, a escola que propõe aprendizagem em número e letras e o aluno, às vezes na mais tenra idade, que busca paz em casa e colo no entorno. Difícil se equilibrar em meio a gritos, violência, palavras obscenas, garrafa de bebida quebrada... Complicado atravessar, para a sobrevivência, a ponte de corda esfarelada que dá no outro lado... E o que existe do outro lado para quem vem das margens?
Ignoram o retorno dos pais da menininha. O celular, que possuíam, “fumaram”. A avó aguarda sem notificar a Justiça. Informar as autoridades pode condenar a filha e ela, por sua história, se sente culpada pelos descaminhos da moça. Não percebe que fora derrubada pela pobreza e omissão dos que poderiam fazer algo. Infortúnio da avó, infortúnio da mãe... Tragédias contagiosas porque os olhares são indiferentes e as leis, sem quem as acompanhe e cuide, não passam de epitáfios. Triste sina dos desamparados. Peçamos a Deus por eles.

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil



publicado por Luso-brasileiro às 14:38
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