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Quinta-feira, 24 de Junho de 2021
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - DE OLHOS NUS

 

 

 

 

 

 

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Embora não lhe faltem risos e sorrisos, seus olhos têm passado com hematomas. Em Irecê – Bahia, onde nasceu, o cunhado brigou no bar, não faz tantos anos, e o desafeto foi até a casa dele. Colocou como escudo a esposa grávida de oito meses. O chumbo atingiu a cabeça da bebê. Morreram as duas. Irecê, nome indígena, significa ‘pela água, à tona d’água, à mercê da corrente.”  À mercê da corrente talvez fosse profecia para sua história.
Quando criança, moldava peças de barro para brincar de casinha. Divertia-se também com o jogo “pega-bandeira”. Mas tudo isso por um tempo reduzido, pois foi com a família para a roça: capinar e colher feijão. Ganhavam pouco e para acrescentar havia a seca.
Estudou até a terceira série. Saiu para ajudar na casa, com o valor que ganhava, transportando cestas na cabeça para as famílias que faziam compras na feira.
Acabo de ler o romance “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior, nascido em Salvador, que fala sobre os descendentes de escravizados africanos. Destaca o sofrimento dos trabalhadores rurais. Do livro: “A luta era desigual e o preço foi carregar a derrota dos sonhos, muitas vezes”. Assim como a história dela.
         Sua lembrança mais bonita, daquela época, é a da Igreja em que não abria a mão de ir com a mãe, atual Catedral do Bom Pastor. O padroeiro da cidade é São Domingos de Gusmão (1170-1221), do desapego material e de preocupação com os doentes e pobres.
Casou-se aos 20 anos e foram para Luiz Eduardo Magalhães – LEM. Conhecida por Branca, 46 anos, cinco filhos, um que partiu. O município é um dos maiores produtores de soja, de algodão e milho do Estado, por isso muitas pessoas migraram para lá. Ainda da Bahia, um momento forte em Barreiras, onde havia o hospital mais próximo -a 90 km - e se dirigiu para ter o bebê. O carro quebrou na estrada, pediram auxílio a um desconhecido que passou. Lá, o aperto no corpo deu lugar ao choro da criança.
Do primeiro casamento carrega feridas –não cicatrizadas - que saíram do corpo, mas permanecem na alma. Na cabeça, há o sinal do dia que o sangue escorreu sem socorro pelos cabelos, porque a trancou no quarto. No dia seguinte, o médico disse que não era mais possível dar pontos, pelas horas passadas, e fez um curativo. Recorda-se com dor de que, após a bala, que a inclinação do pescoço desviou, precisou fugir. Viajou em prantos, pelos filhos que permaneceram, para Taguatinga DF, onde morava uma parente. Como levá-los se dependeria de carona na estrada? O pai deles, com sua violência e mente pervertida, a quebrara por dentro.  Retornou, mais tarde, à casa materna e foi de lá que se fez das tentativas de recuperar as crianças.
Voltou a LEM na Missa de 7º. dia de um dos filhos, para colocar a cruz no jazigo, como é costume. Ele seguira as pegadas do pai, sem noção entre o lícito e o ilícito, o equilíbrio e a fúria. Não conseguiu olhar para o pai dele, que tanto pesara em seu corpo.
Para Jundiaí veio com o atual companheiro, que para ela é carismático. Dentre seus valores, está o de abrigar muito bem todos os seus filhos.
Duas coisas lhe fazem muito bem na Casa da Fonte, onde é voluntária: o filho mais novo, meio sem rumo na adolescência, fez o curso de corte de cabelo masculino e abriu um salãozinho no bairro. E foi no espaço, no convívio com as pessoas, que trabalhou a dor do outro filho que o extravio levou. “A Casa é uma espécie de mãe amorosa e acolhedora – diz ela - com as pessoas que mais necessitam e há amizade. Trabalhar nos kits com alimentos e outros itens, ajuda as pessoas que precisam.” E ela sabe bem.
Gosta muito de música, principalmente de forró de “Os Barões de Pisadinha” e de Zezé Di Camargo & Luciano.  Do segundo, sabe inteira a canção: “No dia em que eu saí de casa/ Minha mãe me disse: filho vem cá/ Passou a mão em meus cabelos/ Olhou em meus olhos e começou a falar. / Por onde você for eu sigo/ Com meu pensamento sempre onde estiver/ Em minhas orações eu vou pedir a Deus/ Que ilumine os passos seus. (...) E o olhar da minha mãe na porta/ Eu deixei chorando a me abençoar...” É isso.

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -

 Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil



publicado por Luso-brasileiro às 14:02
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