
Acabo de ler o artigo “Monumento de folhas caídas” de Frei João Costa, OCD, publicado no Boletim de Espiritualidade, neste mês de outubro, da Ordem dos Carmelitas Descalços de Portugal.
Comenta, o Frei, sobre sua passagem por Roma no Outono, quando as folhas caíam lentamente e não lhe ocorreu perguntar se era por engano, desesperança ou força da lei da vida. Refletiu sobre o papel das folhas na árvore e que, cumpridas, despencam. A árvore poupa assim energia e se preserva para enfrentar os rigores do inverno até que, ao chegar a Primavera, pode reabrir de novo o coração para uma vida nova. Fica, o autor, com essa estação que lhe enche – segundo ele – até as cavernas mais secretas da alma e somente não a troca pela Eternidade. Acrescenta: “Caiam pois a folhas. As tuas e as minhas. E lembrarás, tal como lembro eu, que a sua queda gera vida e protege vida. Delas se libertando, a árvore descobre que se protege e, caindo, fertilizam as terras...”
Conta, ao final, a história de um venerável abade de um célebre mosteiro que deu profissão a um jovem monge que, em poucos meses, murchou. O velho abade não se ficou escandalizado. Respeitou sem forçar nada. Um dia, o moço, atormentado pelas dificuldades e erros, bateu à porta da cela para consultar o sábio ancião. Ele lhe disse: “Tem calma, querido irmão, todos os teus limites e defeitos apenas te instauram como um monumento à misericórdia divina!” Folhas caídas, creio eu, sobre as quais o Senhor gera renascimento.
Lembrei-me da música “Silêncio” de Flávia Wenceslau: “Silêncio, hoje eu preciso tanto ouvir o céu/ Já não é mais urgente assim falar/ Meu coração precisa repousar. /Eu venho lá dos sertões onde a saudade se perdeu/ Daquela estrada empoeirada que doeu/ Feito uma flor que resistiu, assim sou eu. / Silêncio, eu quero ouvir o que me diz a imensidão/ Quero saber se a minha alma tem razão/ Quando acredita que estas coisas vão mudar. / Silêncio, pra eu me lembrar de tantas coisas que eu já sonhei/ E encontrar todas as folhas que eu juntei/ Por esta estrada que me traz até a mim”.
Primavera... Penso nas pétalas que despencaram ao longo de meus dias. Chorei sobre muitas delas. Eram enfeites aos meus olhos e emoções. Talvez, quem sabe, sonhos sem essência maior e, por isso, não valeriam a pena. Foram ora com as intempéries e ora com a brisa porque não eram para ficar. Fizeram-se, hoje, de lembranças vagas. No entanto, quando escolhi, no silêncio, chegar ao Coração do Criador, nas varreduras das pétalas, Ele permitiu que o espaço vazio se transformasse em ninho para uma semente de Céu.
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -
Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil
OS MEUS LINKS