
Esta crônica nasceu de um gesto de ternura dos primos Ana Clara Bispo de Souza (oito anos) e Gabriel Bispo Xavier da Silva (doze anos). São alunos da Casa da Fonte, projeto socioeducacional mantido pela Companhia Saneamento de Jundiaí – CSJ. Junto com outras crianças, sob a supervisão dos professores, colhiam grumixama (também conhecida como cereja silvestre) para consumo no espaço. Na administração, estávamos em três pessoas. Encheram três copinhos descartáveis, colocaram em cima um jasmim e nos ofertaram. Considerei de uma doçura incrível! Sopro com leveza em um mundo áspero e repleto de desatenção.
Um ponto de meiguice no coração puxa outro.
Recordei-me de uma colocação de Clarice Lispector (1920-1977), uma de nossas escritoras maiores: “Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza” e da música “Luz do Sol” de Caetano Veloso: “Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça/ Em vida, em força, em luz. / Céu azul/ Que venha até/ Onde os pés/ Tocam na terra/ E a terra inspira/ E exala seus azuis. / (...) Marcha um homem/ Sobe o chão/ Leva no coração/ Uma ferida acesa/ Dono do sim e do não/ Diante da visão/ Da infinita beleza. (...) Finda por ferir com a mão/ Essa delicadeza/ A coisa mais querida/ A glória, da vida...”
Jesus transbordava compaixão no olhar com delicadeza e paciência, que acalmava, curava e ressuscitava. Foram testemunhas Suas os leprosos, o centurião, os paralíticos, Jairo, os cegos, os apóstolos que se encontravam em mar revolto, o povo que se encontrava com fome, os possuídos pelo demônio, o homem de mão ressequida, os endemoninhados, a mulher cananeia, o surdo-mudo, a sogra de Pedro, os irmãos Marta, Maria e Lázaro, a viúva de Naim, o bom ladrão, Nicodemos, a mulher adúltera, a mulher que lavou Seus pés com lágrimas e os enxugou com os cabelos, Verônica ao ter o rosto do Senhor, a caminho do Calvário, gravado no linho que possuía nas mãos... Lavou os pés dos discípulos, deu-nos um Mandamento novo e falava em parábolas com o propósito de um entendimento maior para a comunhão com o Pai. Deixou-nos a parábola do Bom Samaritano: olhar, comover-se, cuidar das feridas e retornar a fim de conferir se a vida foi salva.
Os olhos de Jesus também Se estendiam às obras da criação para tocar com afeto a alma das pessoas. Disse Ele: “Considerai os lírios, como crescem; não fiam, nem tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles. Se Deus, portanto, veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã se lança ao fogo, quanto mais a vós, homens de fé pequenina! (...)Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino” (cf. Lucas 12, 27-28.32).
Pensei ainda na canção “Leve e Suave” de Lenine: “Há de ser leve/ Um levar suave/ Nada que entrave/ Nossa vida breve/ Tudo que me atreve. / A seguir de fato/ O caminho exato/ Da delicadeza/ E ter a certeza/ De viver no afeto/ Só viver no afeto”.
Assim mesmo para dar um novo tom a cada dia.
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE -
Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil