PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quinta-feira, 26 de Junho de 2014
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - DOIDA OU DOÌDA

 
 
 
 
 
 
 

 

 

Li, um dia desses, na página da Comunidade FB/ POESIASUBLIME, uma frase que me chamou a atenção: “Chamavam-na de doida, mas ela era, na verdade, doída”. Remeteu-me a diversas pessoas que conheci e, em meio a elas, àquela moça, com quem tenho contato há 45 anos, que se destacava no centro. Meninos e meninas, como eu na época, no início da noite de domingo, nos dirigíamos ao Cine Ipiranga ou ao Marabá.  A vivacidade de adolescentes invadia as ruas. Dinheiro contado para a sessão das 19h00, com sonhos incontáveis. “Entrávamos” na tela do filme e vivíamos com intensidade histórias de aventura, românticas, dramas, comédias...  A moça se inseria no cenário da cidade, contudo não se integrava ao nosso mundo. Os que passavam por ela se dividiam em: indiferentes, provocadores, zombeteiros, curiosos e compadecidos.

 

Incluía-me em meio aos apiedados e com interesse sobre o que a levava, tão jovem, a permanecer pelas esquinas, com suas canções da Jovem Guarda.  Minha vontade em saber mais não é de bisbilhotice, mas sim de compreensão das atitudes. Carrego comigo essa ânsia enorme de saber sobre indivíduos das margens, como exercício para me libertar do julgamento e me fazer compaixão. Em um primeiro instante, estabeleci um vínculo sem perguntas, pelo sorriso e, também, por lhe ofertar, na saída do cinema, um dropes Dulcora misto.

 

E como a vida remexe os acontecimentos e aproxima, se der liga – gente excluída, quase sempre, dá liga comigo -, tive um contato maior com a moça 15 anos depois.  Responsável e dedicada no trabalho, não perdera o costume, ao se sentir ferida, em gritar impropérios e nem das gargalhadas espontâneas a respeito de certas atitudes suas. Rir-se de si mesma é uma forma de autoconhecimento e aceitação.  O convívio me fez entender que os transeuntes, que desconhecia, eram a sua referência, por isso ficava nos arredores da praça da Catedral. A mãe e o pai morreram em acontecimento de desgraça, envoltos em atmosfera cinza. A avó, já acometida por doença grave, tentou criar as netas, porém se foi antes mesmo que saíssem por completo da infância. Ficaram as duas de casa em casa. A irmã, mais dócil, conseguiu se estabelecer sob um teto. Ela se fez das feridas expostas nas vias movimentadas, vista como personagem sem perspectiva de mudança. Conseguiu, no entanto, no que foi possível, alterar seus rumos.

 

“Se der a louca”, retorna aos mesmos lugares, fantasiada de ilusão e canta de Sérgio Bittencourt: “Agora resta uma mesa na sala/ e hoje ninguém mais fala do seu bandolim./ Naquela mesa tá faltando ele,/ e a saudade dele tá doendo em mim”. E é uma saudade estranha, saudade do que não aconteceu.

 

Contou-me, há poucas semanas, com expressão dorida, que a irmã se fora. Embora se encontrassem esporadicamente, era um ancoradouro. Em seguida comentou sobre Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, que escreve, em seu livro “História de uma Alma”, a respeito de jogar flores para Jesus, isto é, “de não deixar escapar nenhum sacrificiozinho, nenhum olhar, nenhuma palavra”, servindo-se das coisas mais insignificantes, fazendo-as por amor. Oferece, serena,  as amarguras da solidão e dos insultos e chacotas que ainda recebe de indivíduos que a reconhecem do passado. Grandeza dela e sordidez dos que a ofendem.

 

Sou convicta de que ela jamais foi doida, mas sim doída e essa compreensão me salva de sentenciar.

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - É coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:05
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