
O menino se encontra na fronteira entre a infância e a adolescência. Tem horas que é criança e corre atrás de uma pipa colorida para voar pela imensidão que o atrai, ou agacha, como os demais, para jogar bolinha de gude. Tem horas que é o jovenzinho: olha de soslaio – morto de vergonha-, a menina que passa e acelera nele uma meiguice sem definição. Se conhecesse a obra musical de Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim, por certo cantaria: “Olha/ Que coisa mais linda/ Mais cheia de graça/ É ela menina/ Que vem e que passa/ Num doce balanço/ A caminho do mar”. Tem horas que é o moço, como aqueles que conhece, sem destino certo, e busca cerol ou linha chilena – despreocupado com cortes e mortes – que lhe oferecem o poder sem alma. Nos seus caminhos, emaranhados com sentimentos contraditórios, já viu muita coisa: gente que insiste na sobrevivência em fuga através do uso de drogas, gente que comercializa o ilícito com o propósito de sustentar o vício, gente que, num ímpeto, desistiu de prosseguir, através de uma corda que balançou o corpo para morte ou da ingestão de chumbinho. Gente que se afundou na dívida e os senhores dos charcos, encerrado o prazo, deglutiram.
A história do menino é difícil, pois os capítulos não se encaixam. Dias desarticulados aumentam os medos, a agonia e o risco de tombos fatais. Ao nascer, como as condições financeiras da mãe eram precárias e uma família conhecida se encantou com o bebê, foi para outros braços. Acerto informal. Parece-me, entretanto, que existia carência de abraços. Cresceu assim: com alguns objetos que os outros irmãos não possuíam, mas com vontade imensa de trocar tudo pelo convívio mais próximo com a mãe.
Na escola, insucessos. Na rua, rebeldia e desajustes. Uma maneira de se fazer presença. Mais dedos apontados para os desajustes que para seus vazios. E a sentença condenatória de que serviria apenas à criminalidade.
Dentre suas aspirações, há quatro anos, a de obter uma vaga em um projeto socioeducacional do segundo setor nas redondezas de sua casa. Faltava, contudo, quem lhe fizesse a matrícula. Observava, pelo alambrado, com olhos de súplica e amargor, os personagens do espaço, do menor ao maior.
No final do ano passado, a família que o criou, saturada por suas estripulias, “livrou-se dele”, o devolvendo à mãe. A mãe se ressentiu ao ver o filho tratado como objeto de empréstimo. De início, pela falta de colchão, ficou na tia. O menino desejava, faz tempo, estar definitivamente com a mãe e se percebeu atormentado à espera do próximo passo. Os irmãos não aplaudiram. Tinham-no como um estranho. E, além de forasteiro, na casa de dois cômodos, a área se tornaria menor aos demais.
A mãe o matriculou no projeto. Reparava-se, com clareza, os seus “ensaios” com o propósito de unir-se aos irmãos. Investidas inúteis. Ansiava por florescer a semente de cantiga infantil que trazia com ele, desde o nascimento, antes que petrificasse.
No início de junho, se encantou. Doaram um sofá-cama em bom estado, que o trouxe ao endereço materno. Na reunião da escola, os professores comentaram que melhorara muito na disciplina e, embora com dificuldades, se empenhava no aproveitamento. No projeto, participou de todas as atividades de férias e, no campeonato de dama, mostrou suas habilidades, chegando ao primeiro lugar. Os irmãos se surpreenderam ao vê-lo vitorioso. Subiu ao pódio improvisado a fim de receber o prêmio: um fichário. Posicionou-se para a foto. A irmã se orgulhou dele e pediu para ser fotografada ao seu lado. O sorriso do menino se fez de céu.
Inexplicável: ouvi do vento, em assobio, que, naquela tarde, passava pelos irmãos, a cantiga que fez o menino chorar: “Como pode o peixe vivo viver fora da água fria?/ Como pode o peixe vivo viver fora da água fria? Como poderei viver/ Como poderei viver/ Sem a tua,/ Sem a tua,/ Sem a tua companhia”.
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - É coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.
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