PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2014
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - PASSAGEM DO ANO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para inúmeras pessoas, as festas de dezembro e da passagem do ano despertam seus pesares. Existe um luto que caminha entre luzes coloridas, cânticos e euforia. E quanto mais tempo passa no relógio de sol, maiores as perdas, maiores a dores da ausência, maior a saudade de alguém e/ou de acontecimentos. Vinícius de Moraes, em seu “Poema de Natal”, retratou com fidelidade o quanto somos passageiros: “Por is...so temos braços longos para os adeuses/ (...) Uma tarde sempre a esquecer/ Uma estrela a se apagar na treva/ Um caminho entre dois túmulos...”

A moça que inspirou a crônica de hoje deu sinais de luto. Compreendi por conhecer um pouco sua história. Foram tantas as mágoas, que não sabe qual delas deve tratar por primeiro. O seu desgosto a faz, em várias horas, de cemitério com sepulturas abertas. Não consegue enterrar os fatos do passado.
Infância difícil sem brinquedos. Ainda menina, colaborava com a família manejando uma jangada rústica, meio de travessia da aldeia para a cidade. Entregava à mãe as moedas conquistadas. Na cidade maior de Estado longínquo, seus sonhos cresceram junto ao marido e aos três filhos. Traída, desequilibrou-se. Tentou outras vivências de amor, que julgava para sempre, mas as covas abertas as deglutiram. Tornou-se de coração andarilho. Uma hora reúne os filhos debaixo das asas e em outras se desvia em indagações.

Seu padecer maior me parece o da solidão com crateras em determinados dias e o do medo da distância dos seus. Nesta época esses fatos se agigantam, pois os abraços se ampliam e os dela recuam. Cultiva as mortes e se apavora diante da vida.

Há aqueles que partiram e, pela bondade em nossa existência, de alguma forma, se perpetuam em presença que enternece. Trazem-nos nostalgia agridoce. Existem, porém, os que, embora de corpo presente, reavivam as cinzas que provocaram. Falta respiração aos “queimados”, com o propósito de assoprar os restos sem centelhas das labaredas.

Continuando o Poema de Vinícius: “Pois para isso fomos feitos:/ Para a esperança no milagre/ (...) Para ver a face da morte. / De repente nunca mais esperaremos.../ Hoje a noite é jovem; da morte, apenas/ Nascemos, imensamente”.

Desejo a todas as pessoas em 2015, em especial às que não conseguem se libertar de suas mortes, o renascimento pleno com os olhos nos olhos do Senhor da Vida!

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.



publicado por Luso-brasileiro às 12:41
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