PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 17 de Janeiro de 2016
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - APODERAMENTO DO BEM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São dois acontecimentos fortes que sei do moço. Conheço-o há muito, desde que era caixa em um restaurante. Tempos depois, deparei-me com ele em passos ágeis pelos desvios do álcool e do crack. Observava-o, com sua bicicleta enferrujada, em rotas sombrias, que lhe dariam a droga.  Pedia dinheiro para marmitex e guardava para o consumo de álcool e pedra. A comida vinha do lixo que revirava. No ano retrasado, um acidente o quebrou por fora e por dentro. Durante a longa internação, não houve chance de fazer com que suas emoções e seu espírito fugissem pela fumaça. Na alta, foi para uma clínica de recuperação. Não aguentou e retornou à “moradia antiga”. Como escreveu Mia Couto em “Mulheres de Cinza” (pg. 42): “... bebíamos para fugir de um lugar. E tornávamo-nos bêbados porque não sabíamos fugir de nós mesmos”.   Percebeu, no entanto, que, debilitado fisicamente, não sobreviveria sozinho. Voltou para a clínica e de lá saiu fortalecido para viver na verdade, sem subterfúgios daninhos.
         Em meados de 2015, comemorou o emprego com carteira assinada. No atendimento ao público, em seu trabalho, conheceu a moça de sorriso largo, olhar atento às necessidades das pessoas e feliz pelo casamento que se aproximava. A maneira, sem preconceito, com que ela acolhia a todos lhe chamava a atenção. Em dezembro, admirou a sua alegria com os pacotes de brinquedos destinados a cinco crianças que escolhera a partir das cartinhas do correio. Faltava apenas uma bicicleta para a menina de quatro anos. Propôs-se, ele, de imediato a repartir o valor. Não conseguiria, sozinho, presentear alguém com roupas e brinquedos, mas partilhar sim. Era uma forma de agradecer as graças recebidas e testemunhar as mãos abertas de quem vencera as dependências perversas.
Uma semana após os brinquedos entregues, beirada do Natal, um limite de saúde interrompeu, do lado de cá, a vida da moça. No velório, o moço disse à família que ela chegara diante de Deus com a marca da santidade. Concordo plenamente: a caridade burila, liberta e salva o ser humano.
Embora abatido com a brevidade da vida da moça de história generosa, o moço renovou o seu compromisso com a dignidade e a bondade.
Quando se permite apoderar-se pelo bem, que é uma escolha e não o acaso, há um sentido maior em cada acontecimento, seja ele doloroso ou alegre.

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE   -    Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.
 
 



publicado por Luso-brasileiro às 19:45
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