PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 28 de Julho de 2015
PAULO R. LABEGALINI - A MISSA E O FUTEBOL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José Roberto Torero, escritor do jornal ‘Folha de São Paulo’, há tempo redigiu um texto como se fosse Lelê, seu sobrinho fictício. Eis alguns trechos para relembrar nosso tempo de criança:

“Esse domingo foi um dia engraçado, porque eu fui em dois lugares bem diferentes mas que eram meio parecidos. De manhã, a minha mãe me levou na missa. De tarde, o meu pai me levou num jogo de futebol.

Se eu pudesse comer aquilo que o padre dá, ia ser bacana. E se um dia eu for padre, na minha igreja vai ter uma hóstia bem gostosa, com gosto de pizza ou de banana. Lá na missa, o padre ficou falando sobre os milagres de Jesus e disse que o maior de todos foi ele ter voltado dos mortos, porque ele tinha morrido, mas renasceu no final da história.

Bom, aí de tarde o meu pai, que é palmeirense, me levou para ver o jogo do Palmeiras contra o Atlético do Paraná, que foi o maior bom porque parecia que o Palmeiras ia perder de dois a zero, mas aí ele fez dois gols e empatou, e o meu pai ficou o maior aliviado e disse: ‘Você viu, Lelê? Foi um milagre! O time estava morto, mas renasceu no finzinho.’

Aí, por causa do que o meu pai disse, eu fiquei pensando que a missa e o jogo de futebol têm um monte de coisa igual. Então eu falei: ‘Pai, a primeira coisa igual é que o padre e o juiz gostam de se vestir de preto. Deve ser para parecer bem sério, porque quem se veste de preto é para parecer sério. E os dois dizem para todo mundo o que que é certo e o que que é errado.’

‘É, você até que tem razão, filho. Tem mais alguma coisa?’

Aí eu lembrei de uma coisa importante: ‘Nos dois lugares a gente reza. Só que na igreja todo mundo reza junto e no estádio cada um reza sozinho. O senhor mesmo nesse jogo ficou assim: Ai, meu Jesus Cristo, ilumina esse nosso ataque, senão quem vai ter um ataque sou eu.’

‘É, meu filho, para torcer pro Palmeiras a gente tem que ter muita fé mesmo!’

‘Outra coisa parecida é que a missa e o jogo têm torcida, e as duas cantam. A do jogo de futebol canta mais vezes que a da igreja, e isso é bom, mas a música deles têm palavrão, e isso é ruim. E também tem uma coisa engraçada, que é que na missa e no futebol tem o bom e o mau. Os bons são Deus e o nosso time, e os maus são: o Diabo e o outro time. E a gente sempre torce para o bom ganhar, mas às vezes quem ganha é o mau.’

‘Às vezes, não. Muitas vezes! Acabou ou tem mais alguma coisa, Lelê?’

‘Tem mais uma: na missa e no futebol a gente senta com uma turma que nem conhece e parece que é todo mundo é amigo. Será que é por isso que as pessoas vão na missa e no jogo? Por que elas gostam de ficar numa turma de amigos e torcer para a mesma coisa?’

Aí o meu pai pensou e disse: ‘Acho que é isso mesmo. Você anda muito esperto!’

‘Então, pai, se a missa é igual ao futebol, na semana que vem, em vez de eu ir na missa e no jogo, eu posso ir em dois jogos?’

Eu achei que tinha sido o maior esperto, mas aí o meu pai falou: ‘Hum... O seu argumento é muito bom, mas vamos fazer diferente. Já que é tudo igual, você vai na missa da manhã e na missa da tarde.’

Aí me ferrei. Eu sou esperto, mas o meu pai é mais. Droga!”

Pois é, tem muita coisa que eu poderia discordar da opinião de Lelê, mas sendo uma história de criança, vou deixar passar e apenas lembrar que Jesus também contava histórias há 2000 anos, tipo: “O Reino do Céu se compara a uma semente de mostarda que um homem plantou em seu jardim. Ela cresceu tanto que quase virou uma árvore, onde os pássaros do céu faziam ninho”. E Jesus continuou: “O Reino do Céu pode ser comparado também ao fermento, que uma mulher mistura em três medidas de farinha, de tal modo que a massa toda fica fermentada” (Lc 13,18-21).

Fica claro que os exemplos são necessários, principalmente para explicar algo difícil de imaginar. Se eu tentasse dizer a uma pessoa que não tem fé o quanto poderá ser feliz caso se aproxime de Deus, seria uma tarefa meio árdua; mas, contando fatos milagrosos que já presenciei, ficaria um pouco mais fácil convencê-la a respeito do quanto o Pai nos ama.

Isso acontece muito nos retiros católicos, quando o Espírito Santo se faz presente e nos ajuda a mudar uma série de paradigmas nas cabeças das pessoas. Reforçamos que, aceitando a proposta que Deus nos faz, nossa opção de vida passa a ser outra: a santidade!

E tem gente que confunde santidade com ‘chatice’ ou ‘uma vida só voltada à oração’. Muito pelo contrário: buscar a santidade significa ser feliz já, sem incluir o pecado no dia-a-dia – que nos tira completamente a paz. Seguir Jesus é o único caminho para sermos felizes eternamente!

Portanto, entre a missa e o futebol, dá para ficar com os dois – cada um no seu tempo. Entre o pecado e a paz duradoura, não resta dúvida que a segunda opção é melhor. E entre histórias de crianças e as parábolas do Evangelho, também podemos reservar um tempinho para ambas, concorda?

Tenho certeza que Deus não se incomoda de passarmos algum tempo nos distraindo com coisas boas. Ah, mas não se deixe enganar: somente Jesus Cristo voltou dos mortos em carne e osso!

 

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre



publicado por Luso-brasileiro às 11:09
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