PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sexta-feira, 28 de Junho de 2019
PAULO R. LABEGALINI - PRECISAMOS PARAR DE RECLAMAR

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Labegalini.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Certa vez, cansado da vida cheia de pecados que levava, um cidadão resolveu ser monge. Dirigiu-se a um mosteiro e demonstrou disposição de se redimir dos pecados, viver uma vida de meditação e de sacrifícios, pois, apesar de ser rico, queria doar todos os seus bens à irmandade onde passaria o resto da vida. Sabia que seria uma caminhada difícil, mas o desejo de purificação da alma estava em primeiro lugar.

Ao chegar no mosteiro, foi recebido pelo Superior que, ao ouvir todo o seu relato de vida, argumentou que ele iria encontrar muitas dificuldades por perder o contato com o mundo de onde vinha. O candidato continuava firme em seu propósito; dizia renunciar a tudo e a todos para alcançar a paz interior e, principalmente, o reino dos céus.

Vendo a firmeza de caráter e a vontade de pertencer àquela irmandade, o Monge Superior aceitou-o como iniciante, mas alertou-o que, além das dificuldades já expostas, teria que se contentar em pronunciar apenas duas palavras a cada ano. Sem hesitar, o homem aceitou todas as condições.

Passado o primeiro ano, ele foi chamado e autorizado a dizer as suas duas primeiras palavras. E ele disse: ‘Comida fria.’ Falou-lhe o Superior: ‘Pode voltar para a sua reclusão.’ Após mais um ano, ele disse: ‘Cama dura.’ No final do terceiro ano, mais duas palavras: ‘Vou embora.’ O Superior, olhando bem nos seus olhos, exclamou: ‘Eu já sabia. Desde que você entrou aqui não faz outra coisa senão pensar em reclamar!’

Pois é, sabemos que existem pessoas que não resistem a qualquer dificuldade – reclamam de tudo e de todos. São pessoas que, na maioria das vezes, não fazem nada para melhorar as coisas, sempre dependem dos outros e nada está bom. Geralmente, quem mais reclama é quem menos direito tem.

Não é preciso que sejamos monges, mas é indispensável fazermos uma reflexão sobre as maneiras simples de viver. Jesus Cristo não pregou nenhuma conduta de vida tão extraordinária que ninguém conseguisse cumprir sem reclamar; muito pelo contrário, resumiu tudo em ‘nos amarmos e vivermos sem pecados’. Para isso, é permitido a qualquer um: se divertir, ter dinheiro, usufruir de plena liberdade pessoal a cada dia etc.; porém, sem deixar de rezar e praticar a caridade.

Hoje, eu só estou escrevendo sobre este assunto – parar de reclamar – porque um dia ouvi uma opinião que mexeu comigo. Foi durante o baile de formatura de minha filha, em Campinas. O meu sobrinho, casado e papai, me disse mais ou menos isto: ‘Tio, a partir de hoje, a Thaís precisa agradecer muito a Deus por estar formada. Muito pouca gente neste país tem o privilégio de tirar o diploma numa faculdade e ela conseguiu!’

Naquela noite, antes de dormir, fiquei pensando naquilo que ouvi e, embora tivesse a mesma opinião, conclui duas coisas interessantes: a primeira, que o meu sobrinho reza pouco – como ele mesmo confessou – e, mesmo assim, no meio da festa, falou de um grande dever espiritual de cada um de nós: agradecer quando recebe uma bênção; e, a segunda coisa que mexeu comigo, foi a reflexão sobre a oportunidade que tão poucos têm: estudar até se formar!

Eu vivo no meio de estudantes e, por isso, passo muitos dias convivendo com um ‘mundo irreal’ no nosso país: alunos bem alimentados, com capacidade para aprender, sorrisos nos lábios, contando os dias para se tornarem engenheiros etc. E depois que se formarem, será que darão valor ao presente que receberam de Deus ou serão novos ‘reclamões’ na face da Terra?

O sobrinho que citei dá um duro danado para sobreviver com dignidade e nem por isso reclama; aliás, vive sorrindo! Eu também poderia contar muitas histórias tristes que vejo no meu trabalho de vicentino e, assim, puxar a orelha de quem vive reclamando de barriga cheia, mas, para não chocar o coração de alguém, vou relatar apenas um curioso testemunho dado pelo poeta Rupert Brooke.

Ele estava para embarcar num navio e viajar da Inglaterra para a América. No convés, todos tinham alguém para se despedir, menos ele. Rupert se sentiu terrivelmente solitário ao observar aqueles abraços, beijos e desejou ter alguém que sentisse sua falta. Logo vislumbrou um jovem à sua frente e perguntou seu nome. ‘William’, foi a resposta do rapaz. E o poeta lhe disse:

- William, você gostaria de ganhar algumas moedas?

- Claro que sim! O que devo fazer?

- Apenas acene para mim quando eu partir – instruiu o poeta solitário.

E, mesmo sabendo que o dinheiro não pode comprar o amor, por algumas moedas, o jovem William fez Rupert Brooke se sentir querido enquanto o navio se afastava. Algum tempo depois, o poeta escreveu: “Algumas pessoas sorriam, outras choravam; algumas abanavam lenços brancos, outras abanavam chapéus. E eu? Eu tinha William que, por poucas moedas, abanava entusiasmado seu enorme lenço vermelho e impedia que me sentisse completamente só.”

Que lição isso nos traz? Mostra que pessoas solitárias construíram paredes ao invés de pontes ao redor? Nem sempre, não é mesmo? Madre Teresa costumava descrever a solidão como ‘a maior doença do nosso tempo’. E os mais solitários não residem somente em asilos, nem vivem todos sozinhos. Rupert, por exemplo, estava só, com centenas de pessoas à sua volta!

É necessário reconhecer que, espiritualmente, não estamos sós. Precisamos buscar mais o sentido cristão de nossa vida e, assim, nunca estaremos no lugar do poeta: reclamando e dando moedas em troca de um simples aceno.

Há um provérbio hindu que diz: ‘Ajuda o barco do teu irmão a atravessar o rio e, quando menos esperares, o teu também já fez a travessia.’ Quem agir assim, certamente nunca se sentirá só e talvez não terá do que reclamar.

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico. Vicentino de Itajubá - Minas Gerais - Brasil. Professor Doutor do Instituto Federal Sul de Minas - Pouso Alegre.‘Autor do livro ‘Mensagens Infantis Educativas’ – Editora Cleofas.

 



publicado por Luso-brasileiro às 10:29
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