PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 28 de Outubro de 2014
PAULO ROBERTO LABEGALINI - SENTIMENTOS QUE NÃO PASSAM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando servi o Exército em Itajubá – NPOR, 1975 –, eu ainda estava amadurecendo na personalidade que carrego hoje. E quando converso com amigos daquela época, vêm à mente algumas imagens agradáveis e outras recordações um pouco tristes. O importante para mim é concluir que o saldo é positivo a favor de momentos felizes.

Um dia em particular marcou minha vida de aluno a oficial da reserva. No exercício de ‘Fuga e Evasão’, éramos prisioneiros e conseguimos fugir do acampamento inimigo. Apenas nove pessoas resolveram escapar num momento de desatenção dos guardas, e eu estava no grupo.

Fazia frio e chovia muito nas montanhas, contribuindo para o nosso sofrimento, já que vestíamos apenas calção. E partimos em direção à cidade de Maria da Fé, lugar ainda mais frio; mas o que incomodava muito era a fome. Estávamos há 24 horas sem comer e ficamos felizes quando avistamos uma casinha no campo.

Ao nos aproximarmos, uma senhora veio ao nosso encontro e, imediatamente, ouviu o pedido meio incomum do aluno Rennó:

– Dona, a senhora tem um arrozinho com ovo pra gente comer?

A resposta alegrou nossos corações:

– Tenho sim. Já fiz a janta de hoje e vou servir vocês. Esperem um pouco.

Devia ser mais ou menos 10 horas da manhã e, para nossa sorte, até o jantar estava pronto naquele abençoado lar. Imaginamos que era mais prático e econômico fazer a comida de uma só vez, antes do almoço, mas, por nossa causa, aquela senhora teria que cozinhar tudo de novo!

E logo chegaram os nove pratos bem caprichados. Não lembro exatamente o que tinha de comida, mas sei que havia feijão, arroz, tomate e carne de porco. O ovo que o Rennó pediu, não recordo se fazia parte do cardápio. E comemos como padres! Heheheh...

Abastecidos, chegamos a Maria da Fé e as áreas alagadas não nos permitiram continuar. Ficamos abrigados numa oficina mecânica, aguardando a chuva passar. Como o aluno que mais tremia de frio era eu, aceitei vestir um macacão todo sujo de graxa, que me salvou de padecer congelado.

À noite, o pai de um dos fugitivos chegou para nos levar de caminhonete para Itajubá. E após o banho, pedi à senhora da pensão onde eu morava ir comprar um lanche na padaria, pois eu não podia me expor na rua para não ser preso pelos inimigos.

Bem, mas sabe por que estou contando tudo isso? Na verdade, quero me reportar a um sentimento de ingratidão que guardo no coração, porque não me lembro como agradeci – e se agradeci – as pessoas que me ajudaram. ‘Obrigado’ eu acredito ter dito, mas somente isso foi muito pouco! Hoje, não sei se estão vivas, nem mesmo alguns rostos ou lugares que viviam me recordo. Como reparar isso?

Eu rezo pela senhora da casinha no campo, pelo mecânico que me emprestou o macacão, pelo pai do amigo que nos transportou na caminhonete e pela dona da pensão – esta sim, sei que faleceu. Peço a Deus que tenham paz abundante assim na Terra como no Céu, mas ainda carrego um pouco de culpa por não lhes ter retribuído todo o bem que fizeram. Na época, por alguns meses sustentei o desejo de ir a Maria da Fé levar um presente ao mecânico, mas nem o macacão devolvi pessoalmente – seguiu pelo caminhão de leite.

Então, não somente eu, mas também você, leitor, temos que aproveitar todas as oportunidades para retribuir o amor que recebemos. Não podemos deixar os agradecimentos de cada dia para depois, porque novas oportunidades poderão não existir.

Amar como Jesus amou não é fácil, porém, amar como percebemos que somos amados por tanta gente é o mínimo que o mundo espera de nós. Há carinho suficiente emanando dos corações e não temos o direito de segurar isso conosco, sem retribuir. Faça também a sua parte para não se arrepender.

 

 

 

 

 

PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico, Professor Doutor da Universidade Federal de Itajubá-MG. Pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da UNIFEI.

 



publicado por Luso-brasileiro às 10:46
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
arquivos

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links