PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sexta-feira, 29 de Maio de 2020
PÉRICLES CAPANEMA - LAMPARINA NA PRAÇA DE MÁQUINAS

 

 

 

 

 

 

 

 

Péricles Capanema.jpeg

 

 

 

 

 

 

 

 

Título sugestivo escolheu Roberto Campos para suas memórias: a lanterna na popa. A proa fende as águas da vida, é o presente. Parte de trás, a popa, é o passado. O texto do memorialista, a lanterna, o iluminava.

 

O movimento revolucionário pode ser comparado a um grande navio. Singra os mares da história humana. Tem parte pouco visitada, a praça de máquinas, onde estão seus motores, aquilo que o impulsiona. Vou entrar lá com uma lamparina, ali mostrar certos desvãos.

 

Tudo estava nas mãos do comunismo. Em 1917 o comunismo mais radical, sob o comando de Lênin, por meio de golpe de Estado, conquistou um império gigantesco, a Rússia. Implantou rápida e brutalmente ditadura total, governou balizado por concepções totalitárias, dominou o Estado, massacrou a oposição; enfim, o Partido Comunista tinha tudo nas mãos. Caminho desimpedido, seu objetivo, a sociedade sem Estado dos livres e iguais poderia ser implantado com celeridade, se necessário a ferro e fogo. E dali, pelo exemplo e pelos aparatos da expansão imperialista (em especial a Internacional Comunista) logo conquistaria o mundo encantado com as maravilhas da sociedade comunista ▬ os amanhãs que cantam. Havia enorme esperança no poder redentor do Estado. A superpotência comunista, o poder militar, o financiamento do comunismo no Ocidente de fato ajudaram o proselitismo e a expansão do comunismo. É realidade conhecida, a cara da moeda.

 

Obstáculos. Vou pôr em destaque agora o outro lado, a coroa da moeda. O mundo logo reagiu horrorizado aos espetáculos dantescos do bolchevismo. O Partido Comunista registrou o baque, não conseguia ganhar eleições em boa parte por causa da realidade no país dos sovietes. O horror da situação na Rússia cristalizou fortíssimo sentimento anticomunista e possibilitou a formação de movimentos dessa orientação no mundo inteiro, muitos dos quais tomaram o poder. Os próprios socialistas, ainda que concluindo alianças eleitorais, marcavam distâncias. Pior. O homem novo da utopia comunista não estava se formando na Rússia soviética. A liberação legal dos costumes ocorrida nos primeiros anos que deu origem a pavorosa desagregação social, foi trocada pelo enrijecimento da legislação, sob Stalin, a ponto de certas partes da legislação civil, por exemplo, as relativas ao divórcio, serem mais restritivas que disposições semelhantes vigentes em países democráticos. De outro modo, a liberação moral prometida pela doutrina era limitada pela prática, pois Stalin precisava da disciplina social para industrializar a Rússia ▬ praticava-se um capitalismo de Estado. Mais ainda. Lá o comunismo não transformava fundo as mentalidades. O russo comum era parecido com o russo sob o tsarismo.

 

Tudo estava nas mãos do comunismo? O Estado estava nas suas mãos, as instituições, ensino, polícia, empregos sob inteiro controle. Contudo, não o interior das pessoas, suas crenças, aspirações, gostos, costumes. Saltava à vista para os dirigentes, na política e nas esferas intelectuais, não bastava ter o Estado nas mãos para acelerar a criação do homem novo comunista. Mais ainda, era pouco ter o Estado nas mãos. E, olhando o Ocidente, era pavoroso o exemplo de sociedade comunista (tirania e miséria) que o comunismo russo lhe dava. Dele fugia o povo. Em curto, havia um impasse e a pura doutrina marxista, determinista, e tudo fazendo derivar de realidades econômicas, era incapaz de apresentar a solução.

 

Saídas. De passagem, em artigo anterior, “Dominação e emancipação”, postado no meu blogue (periclescapanema.blogspot.com) em 26 de junho, prometi voltar a tratar da Escola de Frankfurt. Cumpro aqui parcialmente a promessa, espero ainda discorrer mais longamente do tema. Várias foram as correntes e pensadores comunistas de partido e mesmo anarquistas que procuraram saídas para o impasse acima referido. Destacaram-se no cipoal das opiniões em choque, duas delas, o gramscismo e as doutrinas cuja origem de maneira um pouco simplificada podemos colocar na Escola de Frankfurt. É o que hoje via de regra se qualifica de forma abrangente de marxismo cultural. Antônio Gramsci (1891-1937) mostrou a importância de conquistar a sociedade civil (uma grande marcha no interior das famílias, das igrejas, do ensino, dos meios de divulgação) antes de busca o poder no Estado, etapa posterior. E Escola de Frankfurt abriu a mente de milhões de pessoas nas correntes comunistas abrigadas nos PCs ou em torno dele para a importância da destruição da família tradicional, da generalização da moral libertária, da criação de novas mentalidades e costumes, da valorização do instinto com a consequente desvalorização da razão, antes de visar obsessivamente o poder político. Em resumo, é preciso empapar sobretudo o interior das personalidades e a sociedade inteira com novos costumes e novas concepções de caráter libertário e desagregador. O poder político figura apenas como um dado a mais. Entre seus mais conhecidos representantes são mais conhecidos Herbert Marcuse (1898-1979), Max Horkheimer (1895-1973), Theodor Adorno (1903-1965), Walter Benjamin (1892-1940), Erich Fromm (1900-1980).

 

Um exemplo. Daniel Cohn-Bendit, Dany Le Rouge, foi ícone da revolução de maio de 68 na França. A evolução ao longo de 50 anos do que então ele representava desembocou no que hoje chamamos de marxismo cultural. Em maio de 1968 concedeu ele entrevista ao Magazine littéraire da qual transcrevo extratos. “Se quiser, sou marxista, como Bakunin. Sou muito antileninista, contra o centralismo democrático. Existem três temas importantes: a luta contra a repressão democrática, contra o autoritarismo e a hierarquia. Estes três fenômenos se encontram no Leste e no Oeste. Sou contra a sociedade soviética, sou contra a sociedade capitalista. A classe operária russa não tem nenhum poder de decisão. Não me interessa dialogar com o mito Mao. O estalinismo é a forma absoluta de repressão, uma sociedade burocratizada. Lutamos contra a repressão sexual. Marcuse na sua crítica da sociedade capitalista e na sua recusa da sociedade dita socialista é para nós um ponto de apoio”.

 

De forma muito resumida, é o que o prof. Plinio Corrêa de Oliveira no livro “Revolução e Contra-Revolução” intitula 4ª Revolução (sucedânea da 1ª Revolução, a Revolução Protestante, da 2ª Revolução, a Revolução Francesa, e da 3ª Revolução, a Revolução Comunista). E os temas levantados por tais correntes têm relação próxima com o que o pensador católico chama de revolução nas tendências, que em seu ensaio embasa a revolução nas ideias e depois nos fatos ▬ as três profundidades da Revolução.

 

 

 

 

 

 

PÉRICLES CAPANEMA - é engenheiro civil, UFMG, turma de 1970, autor do livro “Horizontes de Minas"

 

 

 
 


publicado por Luso-brasileiro às 10:43
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links