PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 27 de Junho de 2017
RENATA IACOVINO - A IMPERMANÊNCIA DE CHARLIE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Charlie Chan veio na carreira, sobre o telhado, sem pudor de fazer um barulho que contrastasse com o silêncio da plateia ouvinte concentrada nas palavras da professora.

Havíamos comentado há pouco a respeito dele. Disse que só o conhecia por foto e por nome, embora os cachorros eu já tivesse o prazer de ver bem de perto.

A mais inusitada experiência com os cães deu-se em meio ao retiro de um dia de meditação, quando a Mestra adentrou à sala para palestrar e, como todos estávamos em zazen (a meditação zen budista), só ouvíamos e sentíamos as vibrações vindas deles, nos cheirando, passando por cada um de nós, unindo aquele momento de concentração ao cotidiano, em que cheiros, sons e texturas interagem com nosso mergulho em nós mesmos.

Mas voltando ao Charlie, o gato preto e branco, com uma pinta marcante na ponta do nariz e outra no queixo, com enorme rabo e a graciosa cara de pau típica de um felino... bem, ele foi passando pelas pernas de um por um dos presentes naquele semicírculo, ora simplesmente fazendo charme, ora parando para encarar quem escolhesse a bel prazer.

Embora estivéssemos atentos às explicações da sensei, era impossível não nos atermos brevemente à simpatia do bichano. Se devemos estar atentos ao momento, àquilo que está acontecendo exatamente no agora, isto se cumpria, pois absorvíamos o que se passava.

Após essa curiosa investigação, Charlie Chan tem um repente e escala lépido a árvore mais próxima a nós. Fazendo graça sem ter esta intenção, procura obter uma visão geral de tudo o que está sob ele e em seguida desce tranquilamente como se nada tivesse acontecido.

“Inspira e expira, inspira e expira... De tão simples, de tão fácil, de tão acessível, ninguém faz.”. E assim, em meio à aula, tivemos a participação especial do membro felino, que como veio, foi. “Nada é fixo e nada é permanente”.

A noite fresca, o agradável deck de madeira, o jardim entre plantas, estátuas e lanterna, o chá quente e saboroso, tudo ali quase nos faz crer que estamos num local bem distante do centro de São Paulo. Mas, estamos na cidade que não dorme, no movimento contínuo. O que acontece externamente a nós, parece ter seu reflexo em nosso interior, onde pensamentos não cessam. Entre o pensar e o não pensar, nos tornamos outro a cada segundo.

A impermanência mora no agora.

 

 

 

 

RENATA IACOVINO, escritora e cantora / www.facebook.com/oficialrenataiacovino/

 



publicado por Luso-brasileiro às 15:13
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