PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 27 de Abril de 2015
RENATA IACOVINO - MANHÃ DE DOMINGO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Não era manhã de carnaval, tampouco uma manhã feliz, mas era uma manhã que renascia. E embora possa haver redundância em tal assertiva, concretamente não havia, pois ainda que o dia surja após a noite, ele pode ser triste.

            Manhã de carnaval, de Antônio Maria e Luiz Bonfá, era a música que eu ouvia, instrumental, sem canto, sem letra. E a ausência da letra tornou aquela canção triste, mas de uma tristeza que eu estava me despedindo, após uma noite de cinzas metafóricas.

            E nem era quarta-feira de cinzas.

            Ao longo da caminhada eu cruzava com rostos diferentes, porém, de expressões semelhantes. A mim parecia que somente eu destoava daquele cenário de aparente normalidade, em que tudo parece engrenar no ritmo necessário para dar continuidade à vida.

            Entrei no tal clima, mesmo com Manhã de carnaval ainda ecoando pelas minhas retinas.

            E aos poucos conseguia enxergar a simplicidade de andar sem conseguir tropeçar em obstáculos. Talvez porque à noite eles são, de fato, mais difíceis de serem identificados.

            Mas numa manhã clara, que exalava o frescor da quase tempestade recente pelo chão por onde passavam jovens, crianças e adultos, era impossível não olhar para o azul certeiro do céu, sereno em sua intenção. E o sol aos poucos ajudando a evaporar o que restou de gris em algum momento.

            Aquela paisagem tão comum e tão cotidiana me parecia essencial. Repentinamente essencial.

            É como se ela varresse de mim o que em mim eu não mais suportasse.

            E não é assim que algumas vezes nos encontramos? Insuportáveis em nós mesmos? Como imensos nós que se multiplicam e não se desatam. E de repente, atendo-me ao ciclo que nos reserva o banal, pude visualizar cada um dos nós sendo destrinchado.

            Música, movimento, ritmo, cores, seres vivos, natureza, a partida, a chegada, a recorrência, a intermitência, tudo vai me trazendo de volta, num resgate involuntário.

            Ora piso em terra firme, ora em nuvens, numa oscilação impossível de escapar. Ora a chuva é escassa, ora o céu impiedoso faz-se cinza e despeja a tormenta engasgada em seu âmago plúmbeo.

            Não... a culpa não é do céu!

            Nós é que pintamos as cores da madrugada ou da manhã, assim como fazemos com a condução deste planeta que, refém, caminha (também) sob nossa responsabilidade.

            É hora de voltar. Novas reflexões me encharcam...

 

 

 

RENATA IACOVINO, escritora, poetisa e cantora /reiacovino.blog.uol.com.br /reval.nafoto.net / reiacovino@uol.com.br



publicado por Luso-brasileiro às 10:43
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