
Nos idos de 1551, o rei de Portugal D. João III e sua mulher D. Catarina de Áustria oferecem de presente de casamento ao arquiduque austríaco Maximiliano II de Habsburgo, recém-casado com a filha do imperador Carlos V, um elefante. Nascido em Goa, o elefante Salomão, após ser transportado pelos mares, despertara grande curiosidade ao desembarcar em Lisboa, há mais de dois anos. Agora vivia isolado, sujo e malcheiroso, num cercado em Belém, junto com seu cornaca Subhro, conforme consta no romance de José Saramago que dá título a este artigo.
Sai a caravana de Lisboa com soldados, cavalos, bois e um elefante de quatro toneladas de peso e três metros de altura e, meses a fio, percorre os caminhos de Portugal, Espanha e Itália, atravessa os Alpes sob tempestade de neve e chega a Viena no dia 6 de janeiro de 1552. Ao longo do percurso eles sofrem com intempéries, perigos reais e imaginários, vivem aventuras e enfrentam o gelo e os abismos dos Alpes, os quais, diga-se de passagem, Salomão encara com a galhardia de seus antepassados liderados pelo general cartaginês Aníbal, na II Guerra Púnica, séculos antes.
Essa epopeia de fundo histórico traz considerações sobre a natureza humana e a elefantina, numa prosa regada a ironia e poesia. Impelido a cruzar meia Europa, Salomão não decepciona as cabeças coroadas. Após ser recebido festivamente em Valladolid, Solimão, agora é este o nome do elefante, a mando do imperador, que lá esperava para integrar a caravana, entra em Viena, onde salva uma criança, em clima de grande comoção. O cornaca, agora Fritz, também a mando do arquiduque, acompanha-o
Para encurtar a história, o elefante Salomão morreu no inverno de 1553, não se soube de quê. Cortaram-lhe as patas, que serviram para guardar bengalas, bastões, guarda-chuvas e sombrinhas, à entrada do palácio. O cornaca Subhro recebeu o soldo e a propina por ordem de Maximiliano II e comprou uma mula e um burro. Anunciou que iria retornar a Portugal, mas não se tem notícia de ter entrado no país.
Quando, semanas depois, chegou a Lisboa a carta do arquiduque que informava da morte do elefante, D. João III, entristecido, mandou chamar a rainha, que pela expressão do marido, não o deixou acabar a notícia de que Salomão havia morrido. Catarina de Áustria foi para seus aposentos, onde chorou o resto do dia. “Assim é a lei da vida: triunfo e esquecimento”, conclui o narrador.
SONIA CINTRA - É doutora em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo. Pesquisadora da Cátedra José Bonifácio - IRI/USP e membro efetivo da UBE. Fundadora e mediadora do Clube de Leitura da Academia Paulista de Letras e do Clube de Leitura Jundiaiense. Ex-presidente da AJL, oradora da Aflaj e madrinha do Celmi. Pós-graduada em Educação Ambiental, ensaísta e articulista de jornais, revistas e blogs nacionais e internacionais. Tem 13 livros publicados com tradução para o italiano, francês e espanhol.
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