PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quinta-feira, 12 de Julho de 2018
VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - PESSOAS E COISAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Valquíria Malagoli_Blog da Paz.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

           

            Não é incomum ver pessoas abandonando pessoas e animais.

            Quanto às coisas... aí é que a coisa pega. Pega e não larga.

            E quando eu digo “coisa” – a coisa que pega – essa coisa, a que se apega, é a pessoa.

            Pessoas agarram-se a coisas pela necessidade única de não serem abandonadas.

            Coisas não abandonam. Ao contrário, ficam à mercê daqueles a quem pertencem.

            Pela natural submissão desta, aquela tem uma (falsa) sensação de poderio.

            Ok. Falsidade está valendo, e é fácil, tanto mais pela necessidade do outro que facilita a entrada de falsas mensagens, posto que a sua, identicamente falsa, tem na aceitação de uma mentira, a do outro, a validação da outra, esta – a sua!

            Fácil é ostentar.

            Difícil é compreender e pertencer. Pertencer-se, sobretudo em face da supostamente rica amostragem alheia.

            Por isso dá-se tanta coisa!

Por isso a necessidade da coisa: inferior a mim, utilizo-a, ostento-a, nisso, ostentando-me; desprezo-a, ultrajo-a, dela me despojo se e como bem entender.

            É como uma guerra, entende?

            Claro que entende.

            Uma guerra – igual qualquer guerra – inescrupulosa; garantia de vitória, pela obviedade da disparidade de forças.

            Curiosamente, esse ostentador de coisas, o ser-coisa, desumanizado, que tão superior imagina-se, caso imaginação lhe tenha sobrado, e enquanto esse pouco haja... é a extremidade fraca nessa corda que faz girar o mundo.

Mundinho, aliás. Universinho besta e coisificado em que, despido de sua humanidade, essa coisica passou a habitar.

Relógios e suas proveniências... roupas e suas grifes... barcos... carros... motos... enfim, é tanta coisa mais. Não sei, porém, enumerá-las dado jamais ter com elas me familiarizado fosse por poder, fosse por gosto.

Esse foi talvez o maior dos males que muito bem me fez. Acostumei-me a outros bens que, por sua vez, a mim nunca vieram facilmente.

Aprendi que a vida pode ser dura. Mas essencialmente compensadora.

Meu discurso, alguns dirão, é de pobre.

De pessoa que tem coisa alguma.

De pessoa que carrega mãos vazias.

De pessoa que, se tem algo, é só o discurso.

Não nego a leveza das mãos. Nem que o discurso esteja entre as poucas coisas que ainda me fazem gente, que orgulhosa ostento e esvaziada carrego.

 

 

 

 

 

Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br

 



publicado por Luso-brasileiro às 10:54
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