
A provocação veio do caro amigo e também articulista neste blog, o Dr. João Carlos José Martinelli: “tomo a liberdade de sugerir que escreva, se possível, sobre algumas letras de Taiguara, que são verdadeiras obras-primas.”.
En passant, vamos lá...
Pela intensidade tanto no tocante à vida quanto à obra, Taiguara Chalar da Silva (1945/1996), nascido em Montevidéu, filho de pai brasileiro e mãe uruguaia, formou, ao lado de Chico Buarque e Gonzaguinha, o trio de artistas mais censurados pela ditadura militar no Brasil.
Cantasse eximiamente o amor romântico ou, apaixonadamente, declarasse o sonho de ser livre, os censores em tudo de seu farejavam conotação política.
“Por uns velhos vãos motivos/ Somos cegos e cativos/ No deserto do universo sem amor/ E é por isso que eu preciso/ De você como eu preciso/ Não me deixe um só minuto sem amor”.
Como todos que muito creem, durante a luta, nosso herói em questão, homem igual a nós, e por isso mesmo a nós exemplo, a certa altura desanimou, mas, o vate dentro de si não: “Eu não queria a juventude assim perdida/ Eu não queria andar morrendo pela vida/ Eu não queria amar assim como eu te amei”.
Porém, desânimos à parte, tal o próprio compositor e intérprete disse: “quem não soube a sombra, não sabe a luz”. Ele as soube.
Aprendeu. E na mesma proporção, partilhou-as: “Hoje a minha pele já não tem cor/ Vivo a minha vida seja onde for/ Hoje entrei na dança e não vou sair/ Vem que eu sou criança não sei fingir (...) Lá onde eu estive o sonho acabou/ Cá onde eu te reencontro só começou/ Lá colhi uma estrela pra te trazer/ Bebe o brilho dela até entender/ Só feche o seu livro quem já aprendeu/ Só peça outro amor quem já deu o seu”.
Enfim, eu não poderia me furtar fosse ao convite fosse ao deleite de, por meio dele, um tantinho mais vir a conhecer de Taiguara, buscando-o em suas libertárias entrelinhas poético-musicais.
Oxalá, hoje e adiante, ainda “as crianças cantem livres sobre os muros/ E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor/ E que o passado abra os presentes pro futuro/ Que não dormiu e preparou o amanhecer...”.
Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br
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