
Adoro observar, nas rodovias, os bambuzais assombrando a pista. Aquelas pontas altas e arqueadas, aquelas estórias de sacis morando neles, aqueles furos, pegadas que dão motivo à dúvida sobrenatural, à certeza infantil.
Gosto de acompanhar a maneira de a terra ir mudando de cor, ora avermelhando, ora arroxeando, ou quase nua porque recém-semeada, ou verdíssima porque brota, ou ainda colorida, e aí à escolha da estação, seja por quaresmeiras, flamboiãs, sibipirunas...
Admiro-me pela janela com os gaviões próximos aos acostamentos, donde posso bem notar sua beleza e seu porte. Preocupo-me, outrossim, quando eles pairam, soberanos, sobre minha alma inquieta a vislumbrar suas vítimas e já por elas rezar.
“Aves de rapina têm filhotes”, tento convencer-me.
Alguns metros apenas e meus olhos divertem-se e dão saltinhos junto dos tizius. Riem brilhantemente também revendo as tantas espécies de pequenas aves que hoje sei distinguir, mas, que – nunca me esqueço – minha mãe com sua sabedoria santa e prática classificava sem fazer distinção: é tudo vira-bosta, filha!
Tanto adulto como eu, antes, se orgulhava ao exibir os progressos na escola a pais e irmãos (no meu caso mais velhos; sou a caçulinha), lendo em voz alta as placas que disputam espaço pelo percurso. “Quem diria”... digo a mim mesma, eis que as letras hoje me assustam um bom tanto, fantasmagoricamente, pelo quanto mal as enxergo, embaçadas que se me apresentam. Como se vê, para o bem e para o mal, não são somente as cidades que passam, o tempo... o tempo como passa!
As bandeiras tremulam nos pátios das indústrias: país, estado, cidade; os fios se sobrepõem: de pipas, de energia, telefônicos; os postes: de madeira, de concreto...
Vibro se o céu se põe mais escuro, os funcionários se achegam aos pontos de ônibus... estou chegando.
Mas, uma sacolinha plástica sobrevoa carros, passa ameaçadora sobre nosso para-brisa, um motoqueiro desvia dela abaixando-se enquanto ela sobe de novo feito urubu na ascendente...
Passado o perigo, graças a Deus, salta aos olhos, branco sobre o verde em letras que, desta vez, a saudade bem divisa: Jundiaí!
VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br
OS MEUS LINKS