
Hilda Hilst disse certa vez lembrar-se de ter lido num poema aos oito anos de idade: “boninas” e “açucenas”. E embora lhes desconhecesse o significado, encantou-se: “achei tão bonito!”.
Eu, por minha vez, encantei-me pelo deslumbramento daquela mulher resgatando a menina à altura da infantil surpresa.
Como soa-nos imenso na infância o que não conhecemos de todo ou em parte! Lembram-se disso também?
Depois a gente vai crescendo, e, não obstante persevere alguma substância intocável de saberes-não-saberes, é como se uma insossa sensação diminuísse um doce ou salgado intenso aqui, um agridoce paladar ali...
Corre-se o risco de olhar daí por diante com a perspectiva do costume.
Fosse só pelo costume, dir-se-ia que “boninas” são as tão simples “maravilhas”, flores de perfume adocicado, comuns em nossos jardins, conhecidas também por “boas-noites” já que se abrem por volta das quatro da tarde a saudar os ares noturnos.
Comumente, outrossim, chamamos de “amarílis” as “açucenas”, cujas lendas, entre outras, jogam sobre elas o encargo de representar a angústia pela perda do ser amado. Elas florescem uma vez ao ano, entrando a seguir num estado de dormência. Minha mãe, julgando morta aquela com que a presenteei, vupt, arrancou-a durante o seu sono de beleza.
Lembranças... nem sempre saborosas lembranças...
Hilda, invariavelmente singular e tantas vezes incompreendida, à diferença do desejo da mãe, que era que a menina dançasse, desejava, à semelhança do pai, escrever.
Escrever era o seu jeito próprio de mover-se – e mui sensualmente – à melodia ritmada da natureza e do sobrenatural.
“Que essa garra de ferro/ Imensa/ Que apunhala a palavra/ Se afaste/ Da boca dos poetas./ PÁSSARO-PALAVRA/ LIVRE/ VOLÚPIA DE SER ASA/ NA MINHA BOCA./
Que essa garra de ferro/ Imensa/ Que me dilacera/ Desapareça/ Do ensolarado roteiro/ Do poeta./ PÁSSARO-PALAVRA/ LIVRE/ VOLÚPIA DE SER ASA/ NA MINHA BOCA./ Que essa garra de ferro/ Calcinada/ Se desfaça/ Diante da luz/ Intensa da palavra./ PALAVRA-LIVRE/ Volúpia de ser pássaro/ Amada vertiginosa./Asa.”.
Após nossa alma dançar nas voluptuosas asas da liberdade, puxada pela mão da poeta, penso que a mãe de Hilda não foi contrariada.
Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br
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