PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 2 de Junho de 2018
VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI - OS DONOS DA BOLA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Valquíria Malagoli_Blog da Paz.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia desses, passando pelo centro da cidade, vi um amigo ator em plenitude de cena real!

Ele atravessava a rua para adentrar o cemitério. Trazia um pequenino buquê.

Por conhecer um tantinho a pessoa, senti correr pelas minhas veias um tipo de eco, a vibração talvez daquele botão de rosa, cortado, tirado do chão que o alimentava, vivo ainda por graça da energia boa que vinha da essência da pessoa que o empunhava.

A morte de alguém, as saudades, a homenagem inerentes à cena, isto é, a visão – de tal beleza plástica – não me largou mais...

Que eu prezo a palavra enquanto templo, a palavra-escultura, você que me lê sabe.

Porém, não obra oca. Palavra maciça.

Amor, a palavra em si, a bem da verdade, irrita-me sobremaneira, viu. Isso porque ouvi-la, repetida e inadvertidamente, tornou-se desgosto.

A dita-cuja nos chega tão suja, desgastada, não é? Devastada mesmo!

Palavras são entidades. Portanto, se digo “amor” que seja amor à altura do significado.

Não pense você que proferi-lo sem que o seja fira a estrutura, o sujeito, o predicado...

Dizê-lo por dizer fere, e mais ainda, mata o suspostamente ser amado.

Fere o princípio máximo do viver, já que amar o é.

Amar... viver... viver... amar... sabe? o ciclo? então.

A letra de uma canção chamada “uma a menos”, usando-se naturalmente de palavras, assim fala: “Uma canção mais/ Mas não uma canção de amor/ O que dirá?/ Como cantá-la?/ Como fazer com que valha/ O ofício de cantar/ Ou um centímetro sequer desta sala?/ Uma canção mais/ Mas não uma canção de amor/ Melhor calá-la.”.

            É o tal do “vale quanto pesa”, no sentido de, por assim dizer, e para não ficar o dito pelo não dito, sobretudo o dito-cujo: amor sem peso é descarte.

            Amor assim é palavra somente; lavra, ofício, coisa que se lapida ou simplesmente repete pelo efeito que causa ao invés de pela sua causa efetiva.

            Substantivo abstrato adorável, porém, indigesta palpável substância.

            Enfim (que no fim das contas é só o começo) dizer “amor” sem amar assemelha-se a escrever sem motivo.

            E ele, o mote, é tudo o que nos leva a tudo levar. O resto é resto.

            É meio isso... falamos – e fazemos – “amor”, bem como “justiça” etc. como se fôssemos os donos da bola.

            Uma hora o juiz apita.

 

 

 

 

 

Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br



publicado por Luso-brasileiro às 15:53
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